Região
amazônica será responsável por grande parte da ampliação de energia que vai
alimentar o sistema elétrico brasileiro
Agnaldo
Brito, especial para o Estado
A região amazônica, um território correspondente
a 5,1 milhões de quilômetros quadrados - o equivalente a 60% do território
nacional ou metade da Europa -, se converteu na nova grande fonte de recursos
do Brasil. A aposta do governo brasileiro é a de que boa parte da expansão do
Produto Interno Bruto nos próximos anos ocorrerá por conta dos empreendimentos
que serão erguidos na Amazônia.
De lá sairá, por exemplo, boa parte da energia
que vai alimentar o sistema elétrico brasileiro. A Amazônia também se tornará
um atalho com os corredores hidroviários que conectarão as regiões produtoras
do Cerrado brasileiro aos portos do Norte, onde navios chineses e europeus
pretendem aportar atrás de minério e grãos.
Projetos polêmicos para revitalizar eixos
rodoviários obsoletos e que resultaram em pouco desenvolvimento estão em pauta.
Fazem parte desse plano a reconstrução da BR-319 (que liga Manaus a Porto
Velho-RO, a única ligação terrestre entre a capital do Amazonas e o Brasil
meridional) e da épica BR-230, uma rodovia com mais de 4 mil quilômetros de
extensão, metade "estrada de chão", conhecida como Transamazônica.
Na proa dessa ofensiva, destaca-se o setor
elétrico, que aposta tudo na Amazônia. O trauma pós-apagão, evento que afetou a
economia brasileira em 2001, levou o governo federal na gestão Fernando
Henrique e depois Lula a retomar a exploração dos rios amazônicos numa escala
jamais vista. A construção de hidrelétricas na região virou uma preocupação em
relação ao futuro do território amazônico.
As projeções das autoridades não deixam qualquer
margem para dúvidas. A produção de energia elétrica na região amazônica vai
crescer 277% nos próximos 10 anos. Os dados constam do novo Plano Decenal de
Expansão de Energia (PDE-2022), que está neste momento em consulta pública.
De acordo com os números da Empresa de Pesquisa
Energética (EPE), estatal responsável por planejar a expansão da geração de
energia no País, o governo quer a construção de hidrelétricas que somadas
aumentam em 34.344 MW a base instalada na região. A meta é alcançar isso até
2022. Se esse plano acontecer, a Amazônia será responsável pela segunda maior
base de geração hidrelétrica instalada no Brasil, com 46.753 MW, abaixo apenas
das regiões Sudeste e Centro Oeste, com 79.244 MW.
Mas, para se ter uma ideia mais exata dessa
proposta do governo, enquanto a Amazônia terá mais 34,3 mil MW, a expansão no
Sudeste-Centro-Oeste será de apenas 9.384 MW no período. No Sul, a oferta
hidrelétrica vai crescer 8.011 MW e, no Nordeste, 11.779 MW.
Projetos. A Região Norte será responsável
por mais da metade de toda a expansão hidrelétrica que o governo projeta até
2022, segundo o plano decenal. Uma parte desta já foi ou está sendo instalada
neste momento. As usinas do Rio Madeira, como Jirau e Santo Antônio, estão bem
adiantadas e, em parte, operando.
Outros projetos de grandes dimensões estão em
construção, mas enfrentam resistência, como Teles Pires e, principalmente, Belo
Monte - usina que enfrentou há cerca de dez dias a 17.ª greve de trabalhadores.
A hidrelétrica de Belo Monte, que está sendo
construída no Rio Xingu, tem 11.233 MW de potência instalada, mas produzirá
efetivamente cerca de 4.300 MW médios de energia.
Mas novas polêmicas estão no horizonte. O
governo deixou para 2014 a discussão ambiental do Complexo Hidrelétrico do
Tapajós, um conjunto de cinco usinas hidrelétricas no sul do Pará cuja
capacidade instalada será de 10.682 MW. Entre as usinas projetadas para a
região estão: São Luiz do Tapajós (a maior), Jatobá, Jamanxim, Cachoeira do Caí
e Cachoeira dos Patos.
Os estudos para as usinas São Luiz do Tapajós e
Jatobá chegaram a ser suspensos depois que técnicos do governo foram feitos
reféns por índios da etnia mundurucus. O episódio obrigou o envolvimento direto
da Secretaria-Geral da Presidência da República. O estudo foi retomado, mas, a
exemplo de Belo Monte, não será um projeto simples de ser viabilizado.
A previsão era a de que os estudos com detalhes
dos impactos socioambientais chegassem às mãos do Ibama no fim deste ano. A
previsão do governo é conseguir a licença ambiental ao longo de 2014 para
incluir o projeto no leilão de energia nova até dezembro de 2014.
O baixo dinamismo da economia brasileira reduziu
a pressão por mais usinas, mas a retomada do crescimento exigirá a concessão
dos projetos do complexo do Tapajós. É quando, provavelmente, o embate entre os
defensores da exploração hidrelétrica na Amazônia e os ambientalistas,
indígenas e movimentos sociais se acirrará.
A transformação dos recursos amazônicos num
ativo econômico a ser explorado não é nova, mas a diferença é a escala dessa
nova ocupação. Desde a Expedição Roncador, a partir da qual os irmãos
Villas-Bôas alcançaram o interior da região Amazônica, alguns ciclos de
ocupação do território foram organizados por aventureiros ou patrocinados pelo
governo federal. Nenhum, exceto a incentivada Zona Franca de Manaus, resultou
em desenvolvimento sustentável puro.
Fonte:
Estadão

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