No Dia Internacional dos Direitos Humanos,
exigimos que se faça JUSTIÇA JÁ nos casos de Belo Monte, Teles Pires e Tapajós
Omissão: falta
de ação no cumprimento do dever
Leniência: tolerância com o que é ilícito ou proibido
Leniência: tolerância com o que é ilícito ou proibido
“Nós,
índios Juruna da Comunidade
Paquiçamba, nos sentimos preocupados com a construção da Hidrelétrica de Belo
Monte. Porque vamos ficar sem recursos de transporte, pois aonde vivemos vamos
ser prejudicados porque a água do Rio vai diminuir como a caça, vai aumentar a
praga de carapanã com a baixa do Rio, aumentando o número de malária, também a
floresta vai sentir muito com o problema da seca e a mudança dos cursos dos
rios e igarapés (…)”
Trecho
de carta enviada ao MPF, Altamira, 2000
Em 15
de maio de 2001, o Ministério Público Federal (MPF) no Pará ajuizou a primeira
Ação Civil Pública (ACP) contra a Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte em
resposta a uma carta dos indígenas Juruna, que relatava a extrema preocupação
do grupo com os boatos de que o governo federal estaria retomando o
mega-projeto de barramento do rio Xingu na região de Altamira, PA.
Mais de
13 anos depois, a população do Xingu vive o terrível fato de que seus piores
pesadelos estão se tornando uma realidade. As previsões sombrias da primeira
ACP do MPF também vão se concretizando, e hoje já são 20 as ações do
órgão contra inúmeras violações da legislação ambiental e dos direitos humanos
de indígenas, ribeirinhos, pescadores, agricultores e moradores das cidades
impactadas pela usina, consagrados na Constituição Federal e em acordos
internacionais dos quais o Brasil é parte.
Belo
Monte, cujos canteiros de obra seguem se expandindo sobre o que antes era
território dos povos do Xingu, se tornou um símbolo nacional e internacional da
insanidade público-privada de um desenvolvimentismo genocida que destrói tudo
em seu caminho em nome de um suposto crescimento econômico. Suposto, porque o
alardeado crescimento do PIB de 4% a 5%, que embasou o Plano Decenal de Energia
em 2012, em 2013 morreu na praia com 2,5%, e em 2014 deve ser ainda menor, de
acordo com prognósticos de agencias especializadas.
Nesse dia 10 de dezembro,
quando se comemora o Dia Internacional dos Direitos Humanos, é essencial que a
conta dos crimes cometido pelo governo federal
e seus parceiros privados em Belo Monte seja reapresentada ao
país. Em especial, é essencial que se tenha clareza de que grande parte deles
foi documentada, analisada e denunciada à Justiça que, omissa e leniente, tem
permitido que sigam impunes e se repitam e aprofundem de novo e de novo.
Se tomarmos apenas as últimas
ACPs do MPF, iniciadas entre o final de 2012 e o presente, desfilam absurdos cometidos pelo Consórcio Norte
Energia. S.A. (NESA, liderado pelo Grupo Eletrobrás), como o não cumprimento de 40% das
condicionantes do licenciamento ambiental do empreendimento; informações falsas
do empreendedor ao Ibama; erro na medição da cota 100, abaixo da qual haverá
alagamento na área urbana de Altamira, e ausência de cadastramento dos
atingidos; violações da licença ambiental e novo descumprimento de
condicionantes; recusa do empreendedor em cumprir a obrigação de compra de
terras para os indígenas Juruna da aldeia Boa Vista, com danos graves,
desagregação e risco à sobrevivência da comunidade; impacto sobre os indígenas
Xikrin moradores do rio Bacajá; irregularidades nas obras de reassentamento dos
moradores de Altamira a serem atingidos pelos alagamentos, modificação nos
projetos originais sem anuência dos atingidos, desconformidade das construções
com o código de obras da cidade, e muito mais.
Várias ações obtiveram
liminares favoráveis, posteriormente derrubadas sem análise do mérito através
da aplicação da Suspensão de Segurança, instrumento
engendrado pela ditadura militar e generosamente aplicado por presidentes do
Tribunal Regional Federal da 1a Região (TRF1). A maioria das ações aguarda,
engavetada, julgamento em primeira instância, e outras tantas no TRF1.
Uma ação, em especial, ajuizada
pelo MPF em 2006 e que cobra do Estado o respeito à Constituição no tocante ao
direito das populações indígenas de serem consultadas em casos de
empreendimentos que impactem suas terras (oitivas indígenas, artigo 231 da CF),
está aguardando julgamento no Supremo Tribunal Federal. Ainda em novembro de
2012, o Movimento Xingu Vivo e seus aliados solicitaram à presidência do STF
uma audiência sobre o caso, pedido reforçado pelo bispo da Prelazia do Xingu,
Dom Erwin Kräutler, em abril de 2013, e novamente apresentado ao Supremo pelo
Xingu Vivo e parceiros em 4 de dezembro deste ano.
Dezenas de outras ações de
agricultores, pescadores, ribeirinhos e moradores de Altamira seguem paradas na subseção judiciária da cidade,
enquanto se acumulam histórias de vidas destroçadas, misérias e sofrimentos.
Longe de se condoer com esta situação, para reprimir os protestos dos
atingidos, bem como os dos operários da usina, o governo federal enviou para
Belo Monte a Força Nacional de Segurança, que passou a agir como guarda privada
dos empreendedores da hidrelétrica.
Modus operandi semelhante passou a ser adotado
nos complexos hidrelétricos da
bacia do Tapajós, onde está prevista a construção de três grandes usinas no rio
Tapajós, e, em seus afluentes, quatro barragens no rio Jamanxim, cinco no Teles
Pires, e 17 no Juruena (além de mais 80 pequenas centrais hidrelétricas (PCHs)
que estão em colisão direta com Terras Indígenas, territórios ribeirinhos e
Unidades de Conservação).
As ofensivas do governo
federal que marcam os projetos da bacia do Tapajós vão na mesma direção de Belo
Monte: decisões políticas sem consulta aos povos indígenas e sem analise
de impactos cumulativos, violando a legislação brasileira e normas
internacionais, como a Constituição e a Convenção 169 da OIT; atropelos e pressão
sobre órgãos de licenciamento (FUNAI, IBAMA, IPHAN); e repressão e
tentativas de cooptação de movimentos de resistência, com especial ênfase nos
indígenas Munduruku e Kayabi.
Em construção, a UHE Teles
Pires, no rio Teles Pires, foi objeto de duas ACPs do MPF que apontaram graves
violações de direitos e falhas no Estudo de Componente Indígena. Em setembro
deste ano o TRF1 decidiu pela paralisação das obras, porém mais uma vez, a
pedido da AGU, é aplicada a Suspensão de Segurança pelo presidente do STF em
exercício – alegando “grave ofensa à ordem econômica -, permitindo a retomada
dos trabalhos em detrimento dos direitos fundamentais da pessoa humana”.
Já no rio Tapajós, o governo
armou nova operação de guerra para viabilizar os estudos das usinas de São Luiz
do Tapajós e Jatobá. Assim como em Belo Monte, mandou para a região seu braço
armado, a Força Nacional de Segurança, para controlar a resistência dos
Munduruku, que não aceitam o projeto sobre o qual nunca foram consultados e que
afeta diretamente seus territórios e modos de vida.
Paralelamente, o governo
federal diminui inconstitucionalmente, por Medida Provisória,
mais de 75 mil hectares de cinco Unidades de Conservação para possibilitar a
construção das usinas de São Luis do Tapajós e Jatobá. A Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) da Procuradoria Geral da República referente a
estes crimes permanece, desde fevereiro de 2012, sem apreciação da Justiça no
STF.
Cabe ressaltar, por fim, que a
construção de hidrelétricas na Amazônia tem contado com
generosos financiamentos do
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outros bancos
públicos, que utilizam o dinheiro dos contribuintes brasileiros, sem um mínimo
de transparência sobre critérios de análise de riscos e da viabilidade
socioambiental e econômica, e riscos de projetos, e na ausência de mecanismos
efetivos para garantir o respeito aos direitos das populações afetadas e outras
obrigações de responsabilidade socioambiental dos empreendedores, contando como
a baixa aplicação de sanções pelo Ibama.
Demandas
Por
tudo isso, e por considerarmos uma vergonha e um acinte diante do mundo
estarmos sendo obrigados a viver ataques aos direitos humanos, à dignidade da
pessoa humana e às instituições democráticas, de forma que nos faz reviver o
período sombrio da ditadura militar, conclamamos o país a se juntar a nós e
exigir JUSTIÇA JÁ para os atingidos de Belo Monte e dos projetos da bacia do
Tapajós. Exigimos:
- Que todas as instâncias da
Justiça cumpram seu papel e julguem, com celeridade e idoneidade, o mérito de
todas as ações relativas ao projetos hidrelétricos na Amazônia, extirpando
e sanando os descumprimentos da Constituição, da legislação ambiental e da
Convenção 169 da OIT.
- Especificamente em relação à
Belo Monte, que o STF julgue o mérito da ACP sobre as oitivas indígenas e
garanta seu direito constitucional de consulta pelo Congresso Nacional.
- O mesmo deve se
aplicar aos projetos hidrelétricos nos rios Tapajós, Teles Pires e Juruena: que
os indígenas sejam consultados, com poder de veto, sobre a construção ou não
das hidrelétricas planejadas.
-Em relação à UHE São Manoel, que a usina seja retirada do leilão
de energia A-5 de 13/12/2013 e o processo de licenciamento seja cancelado até o
julgamento das ações do MPF. E, em especial, que nenhuma ação para implantação
das usinas seja feita antes da realização da consulta aos povos Kayabi,
Munduruku e Apiaká.
- Em relação à UHE Teles Pires,
que seja revisada pelo Supremo a Suspensão de Segurança do presidente em
exercício, que permitiu a retomada das obras.
- Que o STF julgue a Ação
Direta de Inconstitucionalidade 4717 sobre a desafetação ilegal das Unidades de
Conservação da bacia do Tapajós.
- Que seja erradicada
definitivamente do arcabouço legal do país a legislação sobre a Suspensão de
Segurança.
- Que seja decretada uma
moratória no licenciamento e construção de barragens na região amazônica, até a
realização de estudos sobre impactos cumulativos em nível de bacia hidrográfica
e dos processos de consulta livre, previa, consentida e informada, conforme a
Constituição Brasileira e a Convenção 169 da OIT.
BELO MONTE, JUSTIÇA JÁ! TELES PIRES, JUSTIÇA JÁ! TAPAJÓS,
JUSTIÇA JÁ!
Altamira, Alta Floresta e Itaituba, 10 de
dezembro de 2013
Movimento
Xingu Vivo para Sempre
Comitê Metropolitano Xingu Vivo
Conselho Indigenista Missionário
Terra de Direitos
Prelazia do Xingu
FAOR
Instituto Humanitas
Setorial Nacional Ecossocialista do PSOL
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Movimento de Mulheres Campo e Cidade Regional Transamazônica e Xingu
Movimento Negro Altamira
Mutirão pela Cidadania
Movimento Tapajós Vivo
Justiça Global
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos
Fase Amazônia
Comissão Paroquial de Meio Ambiente (CPMA)
Associação Ambientalista Corrente Verde
Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – FORMAD
Associação Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania (Bahia)
Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense
Fórum Teles Pires
OPAN
Comitê Metropolitano Xingu Vivo
Conselho Indigenista Missionário
Terra de Direitos
Prelazia do Xingu
FAOR
Instituto Humanitas
Setorial Nacional Ecossocialista do PSOL
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Movimento de Mulheres Campo e Cidade Regional Transamazônica e Xingu
Movimento Negro Altamira
Mutirão pela Cidadania
Movimento Tapajós Vivo
Justiça Global
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos
Fase Amazônia
Comissão Paroquial de Meio Ambiente (CPMA)
Associação Ambientalista Corrente Verde
Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – FORMAD
Associação Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania (Bahia)
Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense
Fórum Teles Pires
OPAN
Apoiam:
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International Rivers
AIDA
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International Rivers
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