Eduardo Pegurier
((o)) O eco 22/07/13
Chegara
a hora de deixar a região onde podem ser construídas as hidrelétricas de São
Luiz do Tapajós e Jatobá e retornar a Santarém, onde faríamos as últimas
entrevistas e pegaríamos o avião de volta ao Rio de Janeiro. Escolhemos como
caminho para Santarém o mais seguro, reto e sem buracos ou poeira. Também
escolhemos um transporte mais espaçoso e sociável, com lanchonete e tudo. Em
vez de usar a Transamazônica e a BR163 para percorrer a distância entre
Itaituba e Santarém, preferimos a mais antiga “estrada” da região: o Tapajós.
Não é a toa que as cidades e vilas que visitamos – Santarém, Itaituba,
Jacareacanga e Pimental - estão a sua margem. Muito antes das ainda precárias
estradas da região, o povo de lá usava mesmo era a água. Os rios locais eram o
único meio de locomoção e a principal fonte de proteína na alimentação dos
nativos. Fazem parte da paisagem pequenas lanchas com motores de rabeta ou os
“quarentões”, apelido de um motor específico de 40 cavalos usado em travessias
mais longas. Motor nessa região é abreviação para motor de barco, e distância é
medida em “hora de motor”, já que rio não tem placa de quilometragem.
O Veloz II
Os barcos típicos da região são os “Gaiolas”, também chamados de “Recreio”. São
barcos altos que costumam ter dois decks amplos, com colunas laterais, onde os
passageiros penduram suas redes e assim se acomodam durante viagens que podem
durar dias. Ao longo de cerca de 300 km, a volta de Itaituba para Santarém
nesses barcos costuma durar 14 horas. O barco deixa Itaituba às 16 e chega em
Santarém às 6h do dia seguinte.
Estávamos decididos por essa opção e na noite de véspera da partida fomos
comprar a passagem no próprio gaiola que partiria no dia seguinte. O píer onde
esses barcos ficam atracados é bem em frente à área central da cidade. Descemos
por tábuas bambas e alcançamos o convés, onde encontramos 3 distintos
marinheiros jogando cartas e bebendo sem camisa. “Boa noite, gostaríamos de
comprar duas passagens para Itaituba”, anunciamos. Um deles moveu levemente o
rosto, a sobrancelha, tomou seu tempo, e respondeu: “só com o chefe e ele está
tomando banho”. Perguntamos o preço de um camarote, pois não tínhamos rede e
carregávamos bastante equipamento fotográfico. “180 para os dois”, respondeu
sem tirar os olhos do carteado o mesmo marinheiro. Bem, jantamos, voltamos ao
mesmo barco e falamos com o tal chefe. Para encurtar, ele também falava de lado
e, além disso, aumentou o preço para 200 reais. Tentamos pagar, mas, segundo
ele, isso só seria possível no dia seguinte.
Saímos furiosos com o tratamento e, subindo de volta a orla, avistamos um barco
logo ao lado que lembrava os catamarãs que fazem a travessia Rio-Niterói, na
baía de Guanabara. Era uma lancha grande, com casco de metal e a cabine fechada
por janelas de plástico fumê lacrado. Aproximamo-nos e dessa vez fomos muito
bem tratados. O barco era o Veloz II, partiria às 13h do dia seguinte e chegava
à Santarém às 19h30 do mesmo dia, navegando a uma velocidade média de 28 milhas
(45 km/hora). Uau, isso é velocidade de carro e maior do que a média feita pelo
ônibus da ida. As passagens custavam R$80 por cabeça e voltaríamos em apenas
6h30m, em lugar das 10h enlatados no ônibus que nos trouxe de Santarém e que
cobrou R$70 por passagem.
Na quarta-feira, 17/7, com pontualidade britânica, o Veloz II partiu às 13h.
Ele acomoda 80 pessoas sentadas em bancos de avião comprados usados e
reformados, alinhados em duas fileiras com 3 lugares de cada lado. Cada lado é
servido por 3 ou 4 TVs de LCD, que passam filmes ao longo da viagem. A cabine
onde ficam os passageiros é refrigerada e na popa fica uma lanchonete com duas
mesinhas de 4 cadeiras. As malas grandes entram no porão do barco e as pequenas
sobre a cabeça, também como em um avião. A velocidade que, em princípio,
assustava, revelou-se tranquila dada a massa da embarcação e a grandeza do
Tapajós. Estávamos numa highway aquática.
A
viagem
Ao longo do percurso, o Veloz II fez 4 ou 5 rapidíssimas paradas (veja
alfinetes azuis no mapa abaixo), que duravam o tempo exato para embarcar novos
passageiros. Em uma delas, um píer minúsculo abrigava um casal e suas malas.
Outra foi na mítica Fordlândia, a cidade construída por Henry Ford, em 1927,
para servir de sede a um enorme projeto de produção de borracha e pneus, que
fracassou.
Ao longo do trajeto, cruzamos o tempo todo com gaiolas e barcos ribeirinhos. O
Tapajós alargava, afinava e, por vezes, era dividido em mais de um canal por
suas ilhas. O Veloz II parado tem 2 metros de calado. Porém, navegando, é capaz
de passar em pontos em que o rio tem somente 1,2 metro de profundidade. No auge
da estação seca, o verão local, que vai de julho a outubro, o Tapajós pode se
tornar raso assim. Não é atraente a ideia de cruzar um banco de areia, a uma
velocidade perto de 50 km/hora, separado dele por apenas uma fina lâmina de
água. Mas, Darlei, o piloto, não parecia preocupado. Segundo ele, a rota estava
toda traçada em GPS.
A partir de Aveiros, o Tapajós se agiganta e vira um mar, com uma largura que
pode chegar a 19 km. Da proa do barco, as margens somem e só se vê água. O
vento forma pequenas ondas que fazem o barco pela primeira vez bater contra as
águas. Uma moça com o filho no colo se assusta e chora. Às 18h30 passamos em
frente à Alter do Chão e o sol está prestes a se pôr. O horizonte fica laranja
e, em seguida, ganha uma aura rosa. Em meia hora, já quase escuro, avistamos as
luzes de Santarém. Às 19h30, de novo pontualmente, aportamos. O burburinho na
chegada lembra uma rodoviária. As pessoas querem saltar logo para terra firme,
familiares esperam e os motoristas de táxi oferecem seus serviços.
Na orla de Santarém, o Tapajós de estrada vira avenida, com farto
“estacionamento” para receber embarcações de todos os tipos, cores, tamanhos e
até credos.


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