João
Fellet
BBC
Brasil
Ao
defender a construção de hidrelétricas na Amazônia, o governo federal costuma
citar o argumento de que essas usinas são menos poluentes e mais baratas que
outras fontes energéticas capazes de substituí-las.
Entre
ambientalistas e pesquisadores, porém, há cada vez mais vozes que contestam a
comparação e afirmam que o cálculo do governo ignora custos e danos ambientais
indiretos das hidrelétricas. Para alguns, esses impactos colaterais
influenciaram no aumento da taxa de desmatamento da Amazônia neste ano.
Há
duas semanas, o governo anunciou que, entre agosto de 2012 e julho de 2013, o índice de desflorestamento na Amazônia cresceu 28% em
relação ao mesmo período do ano anterior, a primeira alta desde 2008.
Paulo
Barreto, pesquisador sênior da ONG Imazon, atribui parte do aumento ao
desmatamento no entorno das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio
Madeira, em Rondônia, e da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará.
Segundo
ele, as hidrelétricas atraem migrantes e valorizam as terras onde são
implantadas. Sem fiscalização e punição eficientes, diz ele, moradores se
sentem encorajados a desmatar áreas públicas para tentar vendê-las
informalmente.
No
caso de Belo Monte, Barreto afirma que o desmatamento em torno da usina seria
menor se o governo tivesse seguido a recomendação do relatório de impacto
ambiental da obra para criar 15 mil km² de Unidades de Conservação na região.
Uma
pesquisa do Imazon, da qual Barreto é coautor, estima que o desmatamento indireto
causado pela hidrelétrica atingirá 5.100 km² em 20 anos, dez vezes o tamanho da
área a ser alagada pela barragem.
Na
bacia do Tapajós (PA), onde o governo pretende erguer uma série de usinas, ele
diz a área desmatada indiretamente chegará a 11 mil km².
Fórmula
do desmatamento
O
engenheiro Felipe Aguiar Marcondes de Faria desenvolve em seu projeto de PhD na
Universidade Carnegie Mellon (EUA) uma fórmula complexa. Ele pretende incluir
os efeitos indiretos da construção de hidrelétricas na Amazônia - como o
desflorestamento gerado por imigração ou especulação fundiária - no cálculo das
emissões de carbono das obras.
A
conta, que mede a liberação de gases causadores do efeito estufa, normalmente
leva em conta somente as emissões geradas pela perda de vegetação e pela
degradação da biomassa na área inundada pelas barragens.
"Se
a construção de uma hidrelétrica implicar taxas de desmatamento superiores às
de locais onde não existem tais investimentos, nós poderemos acrescentar esse
desmatamento extra ao balanço de carbono do projeto".
O
pesquisador diz ainda que, além de valorizar terras e atrair imigrantes, a
construção de hidrelétricas pode estimular o desmatamento ao melhorar as
condições de acesso à região, expondo florestas antes inacessíveis.
Faria
também questiona os cálculos que exaltam o baixo preço das hidrelétricas em
comparação com outras fontes de energia. "As diferenças não consideram
adequadamente os custos socioambientais desses empreendimentos".
Ainda
assim, avalia que o Brasil não pode excluir a hidroeletricidade de seus planos
de expansão do sistema energético. Para ele, a modalidade oferece grandes vantagens
em relação a outras fontes de energia, como flexibilidade para atender à
variação da demanda e dispensa de importação de matérias-primas.
Faria
defende, no entanto, que o governo mude sua postura quanto às hidrelétricas na
Amazônia.
"O
desenvolvimento hidrelétrico na Amazônia deveria ser visto não como uma
barragem no rio, mas sim como uma chance de criar um novo paradigma de
desenvolvimento sustentável para uma região, que crie condições para a
manutenção das unidades de conservação e terras indígenas, investimentos em
educação e ciência e melhora na saúde da população."
Porém,
para o procurador-chefe do Ministério Público Federal no Pará, Daniel César
Azeredo Avelino, a construção de hidrelétricas na Amazônia não tem sido
acompanhada pela manutenção de áreas protegidas.
Nos
últimos anos, o governo reduziu Unidades de Conservação para facilitar o
licenciamento das hidrelétricas no rio Madeira e das futuras usinas no Tapajós.
Segundo ele, simples sinalizações de que se pretende reduzir essas áreas já motivam
o desmatamento.
Em
2012, diz Avelino, um mês após jornais divulgaram que o governo estudava
diminuir a Floresta Nacional Jamanxim, no sudoeste do Pará, houve um surto de
desmatamento na região.
"Quando
se fala em reduzir Unidades de Conservação para hidrelétricas, alimenta-se a
ideia de que poderá haver novas reduções, o que encoraja o desmatamento."
Governo
responde
No
entanto, segundo Francisco Oliveira, diretor do Departamento de Combate ao
Desmatamento do Ministério Ambiente, a destruição dentro de áreas protegidas
corresponde a menos de 10% do desflorestamento na Amazônia.
Quanto
ao desmatamento recente no Pará e em Rondônia, diz que não se deveu
necessariamente às hidrelétricas. Oliveira afirma que o desflorestamento em um
raio de 50 quilômetros de Belo Monte passou de 380 km², em 2011, para 41 km² em
2013.
Em
Rondônia, ele diz que também tem havido redução no ritmo do desmate em áreas
próximas às usinas.
Segundo
Oliveira, as principais causas para o maior desmatamento na Amazônia no último
ano foram: no Pará, a apropriação ilegal de terras (grilagem) na região de Novo
Progresso; no Mato Grosso, a expansão da agropecuária; e em Rondônia, a
expansão da pecuária.
Oliveira
afirma, porém, que, apesar da alta, o índice de desflorestamento em 2013 foi o
segundo menor desde que começou a ser medido, há 25 anos.
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