Consta
na agenda oficial do Ministério de Minas e Energia, em sua página na internet,
a previsão de realização, de uma reunião do Conselho Nacional de Política
Energética (CNPE) no dia 17 deste mês.[1] O
que é este conselho e o que será decidido nesta reunião? Quem vai decidir?
Essas
dúvidas têm razão de existir. Afinal, a grande maioria dos brasileiros
provavelmente nunca ouviu falar do CNPE!
Em
decretos presidenciais de 2000 e 2006 - que regulamentaram a lei que criou o
CNPE em 1997 - existe a previsão de participação de um representante da
sociedade civil e um representante da universidade brasileira,
especialistas em matéria de energia.[2] Entretanto,
estas duas cadeiras encontram-se vagas há anos, descumprindo-se um
decreto do Presidente da República e, obstruindo um importante canal de diálogo
entre o governo e a sociedade brasileira sobre um tema da maior relevância para
o país.
Assim,
o CNPE que se reúne em 17 de dezembro é um conselho exclusivamente
governamental, “chapa branca”. Além disso, as Atas e
Resoluções do Conselho deixam claro que grande parte de suas decisões é tomada
“ad referendum”, isto é, apenas carimbando uma decisão já tomada por seu
Presidente, o Ministro de Minas e Energia. Enquanto isso, a
sociedade civil e a universidade brasileira, por não terem representantes no
CNPE, não são sequer informadas sobre as decisões que são tomadas a portas
fechadas.
É
muito grave o não preenchimento dessas duas vagas. Mesmo em número
insuficiente, a presença desses representantes da sociedade indicaria uma
abertura mínima para a participação de pessoas e organizações que poderiam
levar para a mesa de debates e decisões questões da maior relevância, que
ajudariam o Conselho a cumprir sua missão.
É
importante lembrar que as diretrizes que devem orientar a atuação do CNPE
incluem, entre outras: a proteção do meio ambiente e promoção da
conservação de energia; a identificação das soluções mais adequadas para o
suprimento de energia elétrica nas diversas regiões do País; o
estabelecimento de diretrizes para programas específicos, inclusive dos
biocombustíveis, da energia solar, da energia eólica e da energia proveniente
de outras fontes alternativas.
Como
entidades da sociedade civil que acompanham e sofrem as consequências de
empreendimentos prioritários do governo – como a construção de Belo Monte e
outras grandes barragens na Amazônia, e a expansão do Programa Nuclear
Brasileiro (PNB) - podemos afirmar que a atual política energética, estabelecida
por decisões do CNPE, não leva em conta, efetivamente, as consequências sociais
e ambientais dos projetos, em contraste com as diretrizes do próprio Conselho.
Também
contrariando suas diretrizes, o CNPE tem menosprezado propostas inovadoras da
sociedade civil e de empreendedores do setor privado em áreas estratégicas,
como a eficiência energética e a conservação de energia; o aproveitamento do
potencial quase infinito da energia solar, por meio da inovação tecnológica e o
fomento a cadeias produtivas nacionais; as propostas de políticas para
estimular, em bases sustentáveis e com justiça social, a ampliação de escala de
outras fontes renováveis não convencionais, como a eólica, a biomassa e o
movimento natural das águas sem barramentos, assim como a descentralização da
produção e do consumo, evitando riscos e custos da produção centralizada, em
mãos de grandes empresas.
O
não preenchimento das vagas no CNPE reflete uma preferência política do atual
governo de tomar decisões sem dialogar com a sociedade civil. Esse
planejamento centralizado facilita a prática de priorizar o atendimento de
interesses de grandes empreiteiras que são parceiras prediletas do setor
elétrico do governo (Eletrobras, EPE), “campeões nacionais” como Eike Batista,
e grupos políticos, cujas campanhas eleitorais são financiadas generosamente
pelos principais beneficiários da atual política energética.
Não
é legítimo, nem lícito que o CNPE tome decisões estratégicas sobre a política
energética sem abrir o diálogo e sem contar com a contribuição da sociedade
civil. De fato, a atual política energética está sendo imposta à
sociedade, em nome de necessidades definidas a partir de critérios discutíveis,
favorecendo as “necessidades” de determinados grupos econômicos.
Junto
com as políticas de mineração, indústria e transporte, o modelo de produção,
distribuição e consumo de energia é um tema estratégico para o país, envolvendo
escolhas sobre a utilização de recursos naturais e territórios que afetam a
vida de gerações presentes e futuras. Por isso, devem ser objetos de
processos transparentes e democráticos de tomada de decisão, garantindo os
interesses públicos.
Com
certeza, a presença de representantes da sociedade civil e da academia no CNPE
– que devem ser indicados por redes representativas e não pelo Governo, em
maior número do que o previsto no decreto – levaria para a mesa do Conselho
contribuições importantes para superar vícios da atual política energética e
avançar no aproveitamento de oportunidades para efetivar uma política energética
brasileira à altura dos desafios do século 21, pautada em princípios de
transparência e participação democrática, respeito aos direitos humanos,
justiça social, sustentabilidade ambiental e eficiência econômica.
Assim,
as organizações da sociedade civil, abaixo identificadas, manifestam interesse
em abrir um diálogo com o governo a fim de definir medidas práticas para
superar os obstáculos ao efetivo funcionamento do CNPE. Como
primeiro passo, nos dispomos a contribuir para a definição de um processo de
consulta a redes da sociedade e da academia brasileira, objetivando a indicação
de nomes para preencher as cadeiras vagas no Conselho.
Brasília,
17 de dezembro de 2013
Assinam:
Amigos
da Terra - Amazônia Brasileira
Articulação
de Mulheres Brasileiras – AMB
Associação
Alternativa Terrazul
Associação
Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania
Associação
de Preservação do Meio Ambiente e da Vida - APREMAVI
Comissão
Justiça e Paz da Diocese de Santarém
Conselho
Indigenista Missionário – CIMI
Conselho
Pastoral dos Pescadores – CPP
Conservação
Internacional – CI/ Brasil
ECOA
– Ecologia e Ação
FASE
FBOMS
(Fórum Brasileiro de Ongs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente e
Desenvolvimento)
Fórum
da Amazônia Oriental – FAOR
Fórum
Mudanças Climáticas e Justiça Social
Fundação
Avina
Gambá
- Grupo Ambientalista da Bahia
Greenpeace
- Brasil
Grupo
de Defesa da Amazônia – GDA
Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE
Instituto
Centro de Vida - ICV
Instituto
de Estudos Socioeconômicos – INESC
Instituto
Humanitas, Pará
Instituto
Madeira Vivo
Instituto
Mais Democracia
Instituto
Socioambiental - ISA
International
Rivers – Brasil
Marcha
Mundial do Clima
Movimento
de Mulheres do Campo e Cidade Regional Transamazônica e Xingu
Movimento
dos Pequenos Agricultores - MPA
Movimento
Ecossocialista de Pernambuco-MESPE
Movimento
Gota D'Água
Movimento
Tapajós Vivo – Santarém
Movimento
Xingu Vivo para Sempre
Mutirão
Pela Cidadania
Operação
Amazônia Nativa – OPAN
Projeto
Cidade Verde, Cidadania Ativa/ FE- UNB
Rede
Brasileira de Ecossocialistas
Rede
Cearense de Juventude (RECEJUMA)
Rede
Sustentabilidade
Sindicato
dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri/AC
SOS
Clima Terra
WWF
– Brasil
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