Postado
por Nathália Clark
19
/10 /2013 – Greenpeace Brasil
Dezenas
de povos indígenas e tradicionais do Brasil se uniram na semana de Mobilização
Nacional Indígena, realizada e Brasília no começo de outubro. É a atualização da
Aliança dos Povos da Floresta, um dos legados de Chico Mendes (©Tico
Fonseca/Greenpeace).
Há
25 anos, o Brasil perdia um dos maiores defensores de sua diversidade social e
ambiental: Francisco Alves Mendes Filho foi assassinado covardemente em sua
casa em Xapuri, no Acre, em 22 de dezembro de 1988. Chico Mendes, como é
comumente conhecido, deixou um legado de sabedoria e persistência na luta pela
preservação da floresta, que tem sido reproduzido por gerações no movimento
socioambiental. Líder seringueiro e sindical, seu nome representa até hoje a
resistência das comunidades que habitam a Amazônia ao avanço dos tratores que,
no início dos anos 70, sob o comando do regime militar, atropelavam a mata e o
que mais houvesse ao redor para trazer o suposto progresso àqueles rincões
esquecidos.
Sua
história se cruza com a de outras populações tradicionais amazônicas, como os
ribeirinhos e povos indígenas, que também têm na floresta o seu sustento e
fonte de sobrevivência. Com a chegada do ambicioso programa de obras e
colonização do governo, estradas eram abertas no coração da floresta para dar
passagem a novas frentes de “desenvolvimento” na Amazônia. Encobertos pela
poeira e pelo rastro de destruição das maquinarias do Estado, as populações
locais da região sentiram a necessidade urgente de unir forças para tentar
salvar aquilo que lhes era mais precioso.
“Conheci
o Chico quando ele estava peregrinando pelo mundo, indo pra fóruns fora do
Brasil denunciar a destruição da Amazônia, as mazelas trazidas pela BR-163,
insistindo que fossem criados mecanismos de consulta às comunidades,
denunciando que tinham povos ainda em estado de isolamento, que seriam
violentados e dizimados. Ele insistia que os povos da floresta precisavam ser
ouvidos, não sublimados. Na época, as autoridades tratavam a Amazônia como se
só houvesse floresta no caminho, sem seres humanos. Chico foi um pioneiro na
Amazônia, antes dele não tinha ninguém levantando a bandeira dos direitos
humanos relacionada à questão ambiental de maneira tão eficaz. A temática
socioambiental se iniciou aí”, conta Ailton Krenak, ambientalista, líder
indígena, ex-deputado federal e hoje coordenador da Rede Povos da Foresta.
À
época, comunidades extrativistas, como os seringueiros do Acre e os
castanheiros do Pará, enfrentaram inúmeros conflitos com grileiros, madeireiros
e fazendeiros. Muitos perderam suas terras e pagaram com a própria vida o preço
pela defesa da floresta. Foi na luta pela terra, pelos recursos naturais e seus
usos diferenciados pelas comunidades tradicionais, que os povos da floresta foram
se organizando e se aproximando.
“Ele
tinha uma visão muito ampla do planeta como um todo. Ele pensava em organizar
os trabalhadores e percebeu que, mais do que isso, era preciso criar
relacionamentos entre diversas comunidades de forma a transcender os sindicatos
e criar as redes. Muito antes disso virar moda hoje, ele já juntava índios,
seringueiros, ribeirinhos, intelectuais, cientistas, pesquisadores e achava que
essa gente toda tinha algo em comum. Eu tenho muita saudade do meu amigo Chico
Mendes e de suas ideias geniais”, lembra Krenak, saudoso.
Em
1980 foi fundada, por um grupo de lideranças locais indígenas, a União das
Nações Indígenas. Somando a experiência de dezenas de conflitos em todo o país,
a então chamada UNI se articulou com outros setores da sociedade civil para dar
visibilidade às lutas locais, antes invisíveis e extremamente desiguais. Teve
importante participação no avanço dos direitos indígenas conquistados na
Constituição de 1988, além de ter sido precursora da Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), que hoje representa 165 povos
indígenas e 75 organizações regionais.
Em
outubro de 1985, os sindicatos de seringueiros do Acre convocaram o primeiro
encontro nacional, em Brasília, reunindo representantes de comunidades
extrativistas de cinco estados da Amazônia. Na ocasião, foi criado o Conselho
Nacional dos Seringueiros (CNS).
Dois
anos depois, em 1987, Ailton Krenak, então coordenador da UNI, Jaime da Silva
Araújo, o primeiro presidente do CNS, e Chico Mendes, presidente do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, fizeram um evento público em São Paulo para
discutir a proposta de criação da Aliança dos Povos da Floresta, enfocando os
paralelos entre as diferentes experiências e lutas, e a importância de
construir uma aliança efetiva.
Mas
foi apenas depois da morte de Chico Mendes que a Aliança foi oficialmente
lançada, durante o Primeiro Encontro Nacional dos Povos da Floresta e Segundo
Encontro Nacional dos Seringueiros, em fevereiro de 1989, em Rio Branco, no
Acre.
Índios
e seringueiros souberam colocar seus antagonismos históricos de lado para lutar
com eficiência contra as ameaças externas. Dessa forma, a Aliança ganhou força
e deu respaldo a dezenas de colaborações em conflitos com grileiros e madeireiros.
A partir dela foram criadas as primeiras Reservas Extrativistas, demarcadas
muitas Terras Indígenas e instituído o Parque Nacional da Serra do Divisor. A
Aliança também liderou a mobilização que resultou na criação do Grupo de
Trabalho da Amazônia (GTA), que atualmente conta com 623 organizações. Alguns
dizem que ela foi desarticulada anos depois. Há quem discorde.
“Acho
que a Aliança continua existindo até hoje. A Mobilização Nacional Indígena foi
um exemplo concreto disso. Quando juntamos na mesma luta vários povos
tradicionais, quilombolas, ribeirinhos; quando empatamos Belo Monte ou outros
empreendimentos que assolam a vida das comunidades e a biodiversidade, isso é
uma atualização constante da Aliança. As pessoas querem datar tudo, acham que a
Aliança só existiu quando tínhamos escritório físico conjunto. Continuamos
compartilhando agendas hoje, só que em outros campos, como nas redes sociais.
Hoje as ações são feitas em territórios diferentes, novos. Enquanto houver
gente reagindo à destruição da floresta, a Aliança estará viva”, conclui
Krenak.
Um
quarto de século depois, os movimentos socioambientais percebem a mesma
necessidade de união, dada a constante e acirrada ameaça aos direitos
eterritórios indígenas e de populações tradicionais vinda da parte mais
atrasada do agronegócio brasileiro, e aos consequentes conflitos, violência e
morte no campo.
O
histórico da Aliança dos Povos da Floresta serve para mostrar que, quando o
objetivo é comum, as desavenças se dissipam. Vivo fosse, Chico Mendes certamente
não abandonaria seus companheiros de luta contra a afronta daqueles que dominam
os latifúndios – muitas vezes improdutivos – no país e priorizam o lucro
pessoal em detrimento ao bem maior da nação. Que os 25 anos sem Chico não nos
deixem esquecer sua vida e seu legado, revigorem nossos ânimos e aumentem a
força da nossa resistência.

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