Postado
por Germano Assad e Luana Lila
22/12/2013
– Greenpeace Brasil
O
avanço da pecuária sobre as florestas continua sendo uma das maiores ameaças à
Amazônia.
Na
década de 70, o governo militar ofereceu incentivos fiscais para os investidores
brasileiros e internacionais ‘desbravarem’ a Amazônia. Os empresários começaram
a comprar terras que eram antigos seringais com o intuito transformar a
floresta em ‘novas frentes de negócios’, sobretudo pastagens para a criação de
gado.
Mas,
diferente do que se imaginava em outras regiões do país, que tinham a ideia de
que na Amazônia havia um enorme vazio demográfico, eram milhares de famílias de
seringueiros e povos indígenas ocupando aquelas terras. Foi assim que começaram
os conflitos com a expulsão de índios, ribeirinhos e seringueiros pelos novos
“proprietários”.
Pessoas
que nasceram naquelas terras de repente recebiam a notícia de que seriam
obrigados a se retirar. Muitos foram enfrentar um destino de pobreza extrema e
desemprego na periferia das grandes capitais do Norte. Outros perderam a
economia de uma vida, enganados por grileiros. Os que resistiam eram
pressionados por pistoleiros, ameaçados de morte por jagunços e muitas vezes
tinham suas casas queimadas.
Foi
nesse contexto que os seringueiros se organizaram nos Sindicatos dos
Trabalhadores Rurais, apoiados pela Igreja, que criou as Comunidades Eclesiais
de Base com a missão de conscientizá-los sobre seus direitos e formar líderes
que pudessem atuar nas comunidades. O jornalista, escritor e documentarista
Edilson Martins conhece bem essa história.
“Antes
de conhecer o Chico eu conheci o Pinheiro, que foi presidente do sindicato
antes, e foi assassinado nas mesmas condições que ele. O Pinheiro é o cara que
começa a organizar a resistência em um momento que o governo militar decide
substituir o ciclo mono-extrativista que dominava a Amazônia pelos grandes
projetos agropecuários, madeireiros, de mineração, rodovias patrocinadas pelo
banco mundial, transamazônica, ainda no final dos anos 60”, lembra.
O
novo modelo, dominado pelo capital da indústria, das grandes fazendas e
latifundiários se chocaria, mais para frente, com a figura do seringueiro, do
ponto de vista territorial.
Mobilização
e confronto pacífico pela resistência
O
sindicato de Brasileia surgiu em dezembro de 1975, com a ascensão de Wilson
Pinheiro como liderança. Wilsão, como era chamado pelos amigos, foi quem
idealizou a forma de embate pacífico tão inspiradora até hoje, junto com Chico.
Ambos
estavam frustrados depois de inúmeras denúncias feitas aos órgãos competentes à
época, de invasão de terras, violência e agressão à floresta por parte de
fazendeiros e pecuaristas, que terminavam sempre sem resposta.
Cansados,
pensaram os empates, que tinham por objetivo impedir a derrubada da mata e
outras formas de violência contra os seringueiros, como alternativa efetiva às
denúncias feitas em vão.
Vinham
trabalhadores da região de influência da BR-317 caminhando até o lugar onde os
peões estavam prontos para realizar o desmate. Surgiam, de repente, centenas de
homens, mulheres e crianças para formar uma corrente humana em frente a área a
ser devastada. Do outro lado, muitos do que estavam prestes a desmatar eram os
seringueiros que foram cooptados pelos novos donos da terra. Eles não tinham
coragem de passar por cima de seus pares. Ali, no interior da floresta, homens
e mulheres travavam um embate entre pobres, a serviço dos ricos.
Em
pouco tempo eram oito sindicatos na região, com 25 mil associados. A luta era
desigual pois os fazendeiros tinham o apoio do Estado, representado por
policiais, advogados, juízes e políticos. Para a antropóloga Mary Alegretti,
que viveu esse momento de mobilização, a partir da década de 80, a capacidade
de articulação de Chico Mendes vinha da legitimidade que eles passava.
“Eu
entendi qual era o sentido da luta dele porque eu tinha visto o que era o
seringal, o patrão, o seringueiro eternamente endividado, eu tinha estudado
essa situação. Então quando ele falava do seringueiro liberto, do empate, da
necessidade da educação, eu tinha uma profunda empatia, porque eu tinha
percebido exatamente, sabia o que ele estava falando. E acho que ele percebeu
isso, por isso a gente tinha muita cumplicidade”, conta.
A
manada passa e a soja fica
De
lá pra cá, apesar dos esforços das lideranças locais, a pecuária acabou se
instalando na Amazônia e se tornou o maior driver de desmatamento da região.
Segundo
dados do Imazon, entre 1990 e 2003, o rebanho bovino da Amazônia Legal cresceu
140% e passou de 26,6 milhões para 64 milhões de cabeças. Na esteira da
pecuária, a Amazônia foi tomada por outras commodities, como a soja, que foram
expandindo a fronteira do desmatamento na Amazônia.
Um
estudo publicado nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea) demonstrou a relação entre violência e desmatamento. De acordo com ele,
municípios localizados em áreas de desmatamento da Amazônia sofrem mais com a
violência do que outras cidades similares.
Segundo
a pesquisa, a média da taxa de homicídios nos 46 municípios que mais desmatavam
em 2010 era 48,8 por 100 mil habitantes naquele ano. Quase o dobro da observada
nos outros 5.331 municípios pequenos e médios do país (27,1 por 100 mil
habitantes).
O
modelo de desenvolvimento que motivou a luta de Chico Mendes ainda é o mesmo,
baseado em levar grandes projetos para a Amazônia sem compreendê-la e sem se
preocupar com as pessoas que vivem lá. Daí as situações se repetirem ainda
hoje. A Amazônia 25 anos depois de Chico ainda sofre com a falta de governança
e a impunidade.
“Até
hoje, a ideia hegemônica sobre a Amazônia é que ela tem que se integrar a
qualquer custo ao Brasil, quando na verdade é o Brasil que deveria se integrar
a ela, reconhecendo que é dono de grande parte da maior floresta tropical do
mundo e que deve estabelecer um modelo econômico diferenciado, respeitando os
povos que vivem nela. Mas o que se vê é o governo entregando essa riqueza para
a exploração desenfreada, numa lógica em que a floresta é vista como um
empecilho para o desenvolvimento. Isso começou na época do Chico Mendes e
permanece atual, sendo um dos grandes incentivadores da violência no campo”,
afirma Danicley de Aguiar, da Campanha Amazônia do Greenpeace.

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