08
de janeiro de 2014
Índios
de aldeias no sul do Amazonas informaram ao Exército que vão reabrir em 1.º de
fevereiro os pedágios na Transamazônica (BR-320), em Humaitá, a 675
km de Manaus. As lideranças decidiram retomar a cobrança apesar da ameaça de um
novo ataque dos moradores da cidade que, em 26 de dezembro, atearam fogo aos
postos instalados na reserva Terra Indígena Tenharim Marmelos. O conflito
ocorreu após o desaparecimento de três homens na reserva, em 16 de dezembro.
A
reportagem é de José Maria Tomazela e publicada pelo jornal O
Estado de S. Paulo, 08-01-2014.
A
decisão de reabrir os pedágios - ponto de conflito com a população local - foi
anunciada anteontem por lideranças indígenas na aldeia dos tenharins ao
comandante militar da Amazônia, Eduardo Villas Bôas. O general havia
pedido o fim do pedágio em nome da paz na região.
Além
de terem se negado a atender ao apelo, os caciques prometeram explodir as
pontes e isolar a reserva caso haja outro ataque dos moradores. Eles foram
informados de que estaria sendo preparada uma nova ação para a próxima
terça-feira.
"O
povo tenharim já decretou que o pedágio vai continuar, independentemente dos
protestos de algumas pessoas. Demos um intervalo para não atrapalhar a
força-tarefa (que atua na busca dos três homens desaparecidos)", anunciou
o cacique Aurélio Tenharim, depois de expor que o pedágio é uma
compensação pela construção da Transamazônica na terra indígena. Segundo ele, a
construção da rodovia teria causado mortes de índios. "Esperamos quatro
anos para negociar e nenhum governo apareceu."
Villas
Bôas, acompanhado do general Ubiratan Poty, comandante da 17.ª Brigada de Porto
Velho, do corregedor do Ministério Público Estadual José Roque Marques e
dos comandos da Força Nacional de Segurança e Polícia Rodoviária Federal,
argumentou que a cobrança era ilegal e acirrava os ânimos.
Os
indígenas disseram que ilegal era a atividade dos "flanelinhas" nas
cidades e que o pedágio é a principal fonte de renda das aldeias. "Não
podemos caçar, plantar, nem cortar pau para fazer artesanato, pois o Ibama não
deixa", afirmou Zelito Tenharim. Ele questionou a ausência de
representantes do governo. "O general está aqui, mas cadê o Executivo? A
construção de uma usina vai inundar parte da reserva, mas o projeto não foi
discutido com os povos. Nós vamos cobrar por isso."
Os
caciques das etnias tenharim e jiajoy prometeram colaborar com as investigações
sobre o desaparecimento de três homens, no trecho da Transamazônica que
corta a reserva. O episódio causou uma onda de revolta em Humaitá, no Natal, em
que uma multidão incendiou a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) e
outras bases indígenas na cidade, além de veículos e um barco usados no
atendimento aos indígenas. As famílias acusam os índios, que permanecem
isolados na reserva, mas eles negam.
Em
documento entregue aos militares, os oito líderes pediram segurança do Exército
nos limites da reserva e aos índios que estudam e trabalham na cidade. Pediram
ainda um plano emergencial para atendimento na saúde, alimentos e uma reunião
com o governo em Brasília.
Ontem,
o general se reuniu com o prefeito de Humaitá, José Cidinei Lobo do Nascimento (PMDB),
e lideranças locais para discutir a crise na região. Do bispo d. Francisco
Merkel ouviu um alerta: "Outros corpos podem surgir e a questão não
pode ser resolvida ao nível local. Brasília tem de acordar".
"Temos
certeza de que nossos maridos foram mortos e queremos acabar com essa angústia.
Tenho vergonha de ser brasileira porque, em outro país, um crime desses é
cadeira elétrica", disse Erisneia Azevedo, mulher do professor Stef
Pinheiro de Souza, um dos desaparecidos - os outros são o comerciante Luciano
Ferreira Freire e o técnico Aldeney Ribeiro Salvador.
'Tragédia
anunciada'
O
general disse que as investigações da Polícia Federal estão no final e a
conclusão deve ser anunciada nos próximos dias. Segundo ele, as provas devem
esclarecer o desaparecimento e, se houve crime, os culpados serão punidos.
Alertado pelo advogado das famílias, Carlos Terrinha, de que a cobrança do
pedágio será uma "tragédia anunciada com derramamento de sangue", ele
disse que a Força Nacional, a Polícia Rodoviária Federal e a Funai vão tentar
demover os índios da cobrança.
As forças permanecem na
região até o fim do conflito.
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