Documentos
revelam meios usados pelo banco para \"recusar\" informações sobre
financiamentos, empréstimos e operações subsidiadas
RICARDO BRITO E RENATA
VERÍSSIMO - Agencia Estado
Auditoria
do Tribunal de Contas da União (TCU) aberta para fiscalizar o maior
financiamento da história do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), a construção da Usina de Belo Monte, pouco avançou no
mapeamento dos recursos públicos, mas revelou a narrativa da blindagem da
instituição aos órgãos de controle.
Documentos
do tribunal consultados pelo Estado e levantamentos no Ministério Público
revelam os meios usados pelo banco, maior instituição de fomento da América
Latina, para "recusar" informações sobre financiamentos, empréstimos
e operações subsidiadas.
Para
o TCU, Controladoria Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF),
o banco - que recebeu mais de R$ 400 bilhões em dinheiro do Tesouro Nacional
desde o início da crise global- não repassa dados suficientes para aferir suas
operações. Entre os expedientes usados, o BNDES cita sigilo bancário e se vale
da indecisão da Advocacia-Geral da União (AGU) para arbitrar disputas do banco
com a CGU.
O
caso mais recente de blindagem de dados envolve a construção da hidrelétrica de
Belo Monte, em Altamira (PA), cujo consórcio Norte Energia S/A vai receber R$
22,5 bilhões do banco para levantar a usina. No meio do ano passado, o TCU
abriu uma auditoria para verificar a regularidade do uso de recursos do banco
na terceira maior hidrelétrica do mundo, no Rio Xingu, e em outras duas obras
de concessionárias de serviços públicos - uma linha de transmissão para
distribuir energia no Centro-Oeste e um terminal portuário em Salvador (BA).
Começava
ali uma história de resistência, segundo autoridades da Corte. Desde 30 de
agosto, técnicos e ministros do TCU reuniram-se cinco vezes com integrantes do
banco para acessar as informações a fim de embasar a auditoria.
O
segundo encontro, em 17 de setembro, ocorreu na sede do BNDES no Rio, com a
participação de Luciano Coutinho, presidente do banco, e Augusto Nardes,
presidente da Corte. O quarto encontro, um mês depois em Brasília, novamente
com a presença do presidente do BNDES e o relator do processo, ministro Augusto
Sherman.
Não
houve grandes avanços. Apesar de o banco ter encaminhado documentos com o
"menor número de tarjas e com exclusões mais seletivas", a papelada
ainda estava incompleta. No caso de Belo Monte, segundo o TCU, não foram apresentadas
informações básicas como relatórios de análise, fontes de publicações e sites
especializados que serviram de base para o orçamento e a análise da capacidade
de pagamento do consórcio.
Diante
da blindagem, ministros do TCU cogitaram aplicar uma multa a Luciano Coutinho.
Na última manifestação do tribunal no caso, em dezembro, venceu uma retaliação
intermediária. A Corte derrubou o sigilo da auditoria, expondo as tentativas
frustradas de acesso a informações. Também congelou o caso até que as respostas
do banco cheguem completas.
Resistência
O
ministro do TCU José Jorge, que tem participado da análise do caso, resumiu
assim a situação. "Ninguém gosta de ser fiscalizado", afirmou ele, ao
destacar que os bancos públicos, em geral, resistem a repassar dados de
financiamentos sob a alegação do sigilo bancário ao tribunal.
O
ministro ironiza a contradição pela qual a presidente Dilma Rousseff sancionou
a Lei de Acesso à Informação, mas o BNDES restringe acesso a informações.
"A lei vale é para os outros." No caso do Ministério Público Federal,
uma investigação foi aberta em 2011 para verificar a atuação do BNDES, por meio
do apoio financeiro a fusões ou outras reorganizações societárias. O MPF
pretendia compreender os critérios usados pelo banco para concessões de
financiamentos em diferentes áreas de atuação.
A
Procuradoria da República enviou ofício ao BNDES para saber, entre outros
dados, quais os dez maiores valores de projetos de financiamentos aprovados. O
banco recusou-se a responder os questionamentos do MPF por escrito, alegando
que os atos referentes à sua gestão bancária, exceto em casos previstos em lei,
devem ser mantidos privados.
A
procuradora da República Luciana Loureiro Oliveira moveu uma ação civil pública
na Justiça Federal em Brasília para tornar públicas, com base na Lei de Acesso
à Informação, todas as atividades de financiamento e apoio a programas,
projetos, obras e serviços de entes públicos e privados, que envolvam recursos
públicos nos últimos 10 anos, sob pena de multa. Em maio passado, a Justiça
rejeitou pedido de liminar. Falta, ainda, julgar o mérito.
''No
limite da lei''
A
assessoria de imprensa do BNDES afirmou em nota que a instituição tem atendido,
"dentro dos limites estabelecidos pela lei", todas as solicitações de
informações realizadas pelos órgãos de controle. "Todos foram plenamente
atendidos, salvo quando havia algum impedimento legal (quando os pedidos se
referiam à disponibilização de dados privados de clientes, por exemplo)",
anotou.
O
órgão preferiu não responder pontualmente a uma série de questionamentos do
Estado a respeito de fiscalizações do Tribunal de Contas da União,
Controladoria-Geral da União e Ministério Público Federal. As informações
são do jornal O Estado de S. Paulo.
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