07
Janeiro 2014
Eu
conheci o Mukuka Xirin pela primeira vez em fevereiro de 2012. Naquela época
ele era estudante e tinha 23 anos. Mukuka era uma pessoa “entendida das
coisas”; porém muito calado. Ele não era um líder mas possuía a força de um,
escondido por detrás do seu humilde olhar. Ele me levou para visitar 7 das 8
aldeias dos povos Xikrin, localizado no rio Bacajá, afluente do rio
Xingu.
Dormimos
na aldeia Poti-Krô. Naquela época, o Mukuka já tinha conhecimento sobre os
impactos que a Hidrelétrica de Belo Monte causaria na sua comunidade mas ele
não sabia o significado que esse projeto teria na sua vida.
Alguns
meses depois, Mukuka virou alvo, por posicionar-se firme contra Belo Monte. Ele
foi ameaçado e hostilizado. Depois disso, ele se isolou por um tempo para
proteger a integridade física sua e de sua família. Um ano depois, eu voltei
para a comunidade Poti-krô, o mesmo local onde nos encontramos anteriormente. A
força e a humildade ainda estavam ali; eu podia vê-las através de seus olhos;
mas Mukuka já não queria mais lutar, ele queria apenas encontrar uma maneira de
ajudar a sua comunidade a sobreviver.
Nós
organizamos reuniões na sua comunidade e ouvimos o que eles tinham para dizer.
Antes da reunião começar, os indígenas pediram desculpas por não estarem
pintados e vestidos de acordo com a sua cultura. Até isso, a Hidrelétrica de
Belo Monte está destruindo na comunidade. Tukuraré, o Conselheiro de Saúde
local, conversou conosco mas pediu para não ser gravado.
"O
governo disse que Belo Monte trará desenvolvimento para o país. Eles disseram
que iriam consultar os povos indígenas porque as construções iriam nos afetar.
Mas a consulta foi como um passarinho que voa de um lado ao outro. A conversa
foi muito rápida. Para que o povo indígena entenda algo você tem que repetir
muitas vezes."(...) Ele continuou: “o [governo] se aproveitou dessa nossa
fraqueza que é a ingenuidade e falta de entendimento e apresentou o plano
emergencial oferecendo-nos “migalhas”... A FUNAI poderia ter trabalhado para
trazer coisas que poderiam realmente ajudar as nossas aldeias mas isso nunca
aconteceu. Eles construíram algumas casas de madeira e deram alguns barcos dizendo
que estavam fazendo o seu “melhor”. Mas as coisas que eles deram aos indígenas
apenas causou problemas, intrigas, divisões e dores de cabeça.”
As
pessoas da comunidade Poti-Krô sabem que a hidrelétrica de Belo Monte também
afeta outros povos que dependem do Rio Xingu e dos seus afluentes. Eles falaram
que “a construção de Belo Monte está gerando tráfico humano, crime e
prostituição e consequentemente muita tristeza” para eles. Quando
perguntado se existia alguma chance de que a barragem poderia trazer
benefícios, Tukuraré respondeu: "não, eu não acho que é possível, porque o
rio é a nossa estrada. O governo tem aviões. Como eles vão trabalhar sem
aviões? O mesmo acontece conosco. Sem a nossa estrada ficamos encurralados....
Estou muito triste com essa situação. Eles estão brincando com as nossas
vidas.”
Dentro
da oca, a maioria das pessoas eram homens e haviam poucas mulheres segurando
bebês em seus braços. Naquele momento, percebi que essa batalha era mais
difícil de ver e entender do que uma guerra de fato. O isolamento e a falta de
comunicação criou uma distância entre o mundo Xikrin e o meu mundo. Eu não era
a única pessoa que sentia aquilo. Tukuraré parecia estar lendo meus
pensamentos: "A pior guerra é a guerra de palavras porque você não vê realmente
o sofrimento das pessoas pois não existem bombas e mortes. É uma guerra de
mentiras contra os nosso direitos. É uma guerra através das palavras", ele
finalizou. Tukuraré estava certo, a guerra de mentiras estava matando
lentamente essas pessoas.
A
conversa seguiu por algumas horas. Até então, o Mukuka estava apenas traduzindo
e guardando seus pensamentos para si mesmo. Já o Tukuraré , parecia expressar a
a voz do povo do Xikrin . Ele pediu precisamente para expressar suas palavras
de forma exata.
"Hoje
eu ouvi alguns indígenas dizendo, e agora? Quem poderá nos ajudar? Com quem
podemos conversar?’ [Porque falar com os funcionários do governo não adianta].
Se nós falamos com a FUNAI, ela passa a “bola” para a Norte Energia que passa a
“bola” para o governo e por aí vai. A mensagem dá voltas e ninguém se
responsabiliza por nada.” Então, em reconhecimento a nossa presença ele disse
“a melhor coisa é fazer o que vocês fazem, porque vocês ajudam a gente a
entender o que esta acontecendo, e consequentemente ao entender podemos
agir"
Tukuraré
também se manifestou sobre a situação atual da aldeia: "As duas coisas
mais importantes são saúde e educação. Com educação podemos escolher o que é
melhor para a gente. O governo é responsável por fornecer saúde e educação. O
pior sistema de saúde no Brasil é o das comunidades indígenas. Quanto `a
educação, se você perguntar para as pessoas daqui, você vai ver que ninguém
passou da quarta série. Nosso professor acabou de deixar a escola em outubro.
Agora estão dizendo que não vamos ter professor durante o resto do ano. Como
podemos lutar pelos nosso direitos se não temos educação? "
Ele
estava certo. A infraestrutura da aldeia Poti-Krô é melhor em comparação com as
outras 7 aldeias que eu visitei, mesmo assim a estrutura é precária.
Algumas aldeias ainda não tem nem poços. As crianças estão ficando doentes
porque a água esta suja devido a construção da barragem. "O governo é
irresponsável”, disse Tukuraré. Ele falou: "a minha mensagem é para que
eles respeitarem os povos indígenas e respeitarem a natureza. Porque essa terra
pertencia aos nossos antepassados e nós dependemos da natureza para poder
sobreviver. "
Já
estava tarde e escuro, decidimos continuar a nossa conversa no dia seguinte.
Enquanto nos organizávamos para dormir, o Mukuka veio e sentou conosco para
conversar. Nós perguntamos sobre os impactos que a hidrelétrica causou na
região. Ele disse: "no ano passado, por causa da construção, notamos lama
[verde] na água, e os peixes começaram a morrer." Tudo isso aconteceu pela
primeira vez em outubro.
"Nós
vimos muitos peixes morrerem", disse Mukuka, e continuou: "Ninguém da
Norte Energia explicou o que estava acontecendo. Começamos a perceber esse tipo
de coisa." Então perguntamos se alguém da companhia poderia explicar o que
estava acontecendo e novamente eles falaram que eles só poderiam explicar
através de uma análise, e ninguém veio explicar absolutamente nada ou falar
sobre alguma compensação.
Mukuka
disse que a empresa Norte Energia criou uma divisão entre os grupos indígenas,
por isso eles pararam de lutar contra a construção da hidrelétrica. Ele disse
que os grupos da região querem seguir vivendo sem criar mais conflitos entre
eles. Mukuka disse que os grupos indígenas ainda se comunicam mas não como
antes. Ele disse que agora eles já não fazem mais seus rituais de celebração.
Quando
questionado sobre os planos para o futuro, ele respondeu tristemente: "Eu
não sei, não há nada planejado para o futuro. Se não existir uma estrada vamos
ficar presos aqui. A empresa tem uma plano para construir uma estrada mas nunca
a fizeram. Se a situação ficar muito difícil vamos ter que nos mudar daqui.
"
Nós
perguntamos como ele se sente em relação à hidrelétrica de Belo Monte.
"Sinto raiva por dentro e também fico muito triste. A maioria das pessoas
se sentem assim. Também estamos sem entender o que esta acontecendo. As coisas
não estão claras, e eles usam palavras complexas para explicar [a situação]”,
disse ele. Porém Mukuka também tem esperança em relação ao futuro. Ele disse
que gostaria de ver as crianças vivendo no mundo onde ele vivia, com uma
cultura e uma língua própria. Quando questionado sobre Belo Monte, ele
completou: "Eu acho que um dia a construção da hidrelétrica vai parar.
Nós acreditamos em Deus. "
O
dia já tinha terminado. Eu fui dormir e não conseguia parar de pensar o que seria
do futuro do povo Xikrin. Hoje existem cerca de 1.300 pessoas vivendo nessas 8
aldeias. Eles estão beneficiários de quase todas as ações que o Ministério
Público fez em defesa do Xingu, seus povos e contra as irregularidades no
processo de licença e construção. Eles também são beneficiários de uma ação específica contra o BNDES,
IBAMA e Norte Energia decorrente da falta de compensação ao seu povo que são
impactados por Belo Monte.
No
dia seguinte fomos à floresta colher mandioca e participamos de uma reunião com
as mulheres. Depois passamos um longas horas vendo as crianças que brincavam no
rio. Bacajá significa “o mesmo que corre no nosso sangue”, disse Mukuka. Eu
podia ver isso... E vendo me entristecia ao dar-me conta de que o rio esta
morrendo e com ele também os sonhos, cultura e a vida deste povo... Mas
eu não podia partir com essa tristeza inundada no peito, então eu preferi
partir com a mesma esperança que ainda via em seus corações: a esperança que de
uma maneira ou outra tudo vai dar certo no final..
Maíra
Irigaray é advogada Internacional de Direitos Humanos e Meio Ambiente.
Mestre em Direito Comparado pela Universidade da Florida. Atualmente
Coordenadora de Campanha de reforma das Instituições Financeiras Internacionais
para a Amazon Watch e Coordenadora da Frente "Bancos" para o
Movimento Xingu Vivo para Sempre.



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