Confira artigo de Márcio
Santilli, sócio fundador e assessor de Política e Direito Socioambiental do
ISA, sobre o último apagão e a política energética do governo Dilma
05/02/2014
Já está pra lá de Bagdá a
hipocrisia do governo Dilma Rousseff em relação à questão energética. A
ocorrência, terça-feira passada, do décimo apagão dessa gestão, já em pleno ano
de reeleição, suscitou mais uma reunião ministerial emergencial para apresentar
alguma satisfação à população. Do que foi tratado, transpirou pela mídia que se
pretende apressar a construção de mais hidrelétricas na Amazônia.
Talvez a presidente pudesse
se mancar de que o país necessita, há décadas, de um ministro da Energia. E que
a importância cada vez mais decisiva da política energética para o futuro da
humanidade, associada à dimensão dos conflitos que a questão já carrega no
país, deveria ser suficiente para tornar urgente alguma providência. A
presidente poderia aproveitar a situação patética em que o não ministro Edson
Lobão colocou o governo – ao declarar peremptoriamente que o risco de um apagão
seria zero, menos de 24 horas antes da queda no sistema que afetou mais de seis
milhões de pessoas – e libertar o Ministério de Minas e Energia (MME) do
loteamento político.
A presidente já deveria ter
desconfiado que os números que baseiam as supostas prioridades estratégicas do
setor energético, e que ela continua a repetir, estão furados. Que o preço da
hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), por exemplo, já é o triplo do
que havia sido anunciado e que a quantidade de energia a ser gerada pela usina
será um terço menor da que havia sido anunciada. E que os problemas e conflitos
da obra multiplicam-se, que suas supostas condicionantes socioambientais não
são cumpridas e que o impacto para o conjunto da sociedade será muito maior do
que o anteriormente reconhecido.
Também seria um bom momento
para rever a procedência da política de estímulo ao consumo de energia e para
reconhecer que seria melhor para o país e mais prudente para qualquer governo
incentivar a sua economia, além da sua produção nas residências, nas fábricas e
nas propriedades rurais, reduzindo a demanda sobre o sistema e o impacto de
suas eventuais falhas sobre a economia e a sociedade. A administração federal
também impôs ao país uma politica equivocada para as energias alternativas
renováveis: hoje, estamos importando etanol e, ao mesmo tempo, não há
incentivos adequados para a geração eólica, de biomassa e principalmente solar,
nicho em que China, EUA e Alemanha avançam a passos largos.
A presidente construiu a sua
própria armadilha ao subsidiar os preços da energia, sobretudo para os grandes
consumidores, indústrias produtoras de eletrointensivos, como o alumínio, por
exemplo, que querem vendê-los a preços cada vez mais “competitivos” no mercado
internacional, exportando energia de graça.
Além disso, o governo reduz
impostos sobre a fabricação de eletrodomésticos e incentiva o aumento do
consumo, alegando, de um lado, que promove o crescimento da economia e, de
outro, que melhora as condições de vida de segmentos da sociedade. Mas o fato é
que o crescimento econômico continua pífio e o endividamento das famílias é
recorde, demostrando que, no mínimo, inexiste estratégia consistente de
desenvolvimento. O governo patina na mesmice da distribuição de benesses para
alguns setores econômicos, mas parece que o saco de papai Noel está esvaziando
rapidamente.
Equívoco similar ocorre em
relação ao petróleo, seus derivados e à indústria automobilística. Subsidiam-se
os preços, ao ponto de debilitar a Petrobrás, reduz-se o IPI, infla-se o
consumo, a poluição, o trânsito, o custo dos transportes, a imobilidade urbana,
os acidentes e as vítimas. Não se mexe na matriz de transportes e o governo
diz-se surpreso quando multidões vão às ruas demonstrar sua insatisfação com a
piora da qualidade de vida nas grandes cidades.
Finalmente, voltando ao
ministro Lobão, se a presidente está preocupada com as repercussões negativas
do apagão, assim como de outros que ainda poderão ocorrer até as eleições,
poderia fazer uma sinalização mais significativa para a sociedade despachando
esse senhor de volta para casa e nomeando para o cargo alguém que agregue
credibilidade, seriedade, respeito para com o cidadão. Isso não resolverá a
ameaça imediata de apagão, mas enseja algo mais do que a mera manipulação de um
ministério importante por figuras obscuras e por forças políticas nefastas,
mais ocupadas com o tráfico de influência dentro dos governos e com relações
perniciosas com empreiteiras que impõem esse modelo de grandes obras
superfaturadas e garantem o financiamento das campanhas eleitorais.
Com um ministro de verdade, o
governo poderia convocar as melhores cabeças e instituições do país, inclusive
da academia e da sociedade civil, e promover a rediscussão das prioridades da
política energética para os próximos anos, de modo mais realista, considerando
a crise mundial de energia e o agravamento das mudanças climáticas.
Atropelar o já inexistente
processo de licenciamento ambiental das usinas planejadas para o Tapajós, ou
construir outro elefante ainda mais branco, Rio Xingu acima em relação a Belo
Monte, conforme teria sido aventado na reunião emergencial, representaria,
apenas, o agravamento de uma diretriz equivocada que já produziu gastos e
sofrimento demais para o país. Não evitaria os apagões dos lobões e só
colocaria mais e mais licitações naquelas mãos.

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