Fonte: Amazônia em Chamas
Indígenas da etnia e parceiros de luta se encontraram para
organizar e discutir agenda das próximas ações contra a construção das
hidrelétricas
Foram cinco dias de conversas que se estendiam
pela noite. Justificável: é rara uma situação em que mais de 400 indígenas de
62 aldeias da etnia Munduruku tem a oportunidade de se encontrar para debater
{trocar experiências e relatos} a respeito dos impactos iminentes do projeto
federal que prevê a construção de barragens na região em que habitam.
Entre os dias 1 e 5 de novembro, diversas
representações deste povo – junto com parceiros, ribeirinhos também afetados e
órgãos como Funai e Ministério Público Federal – se encontraram à margem do rio
Tapajós, na aldeia polo base Restinga, para discutir os rumos do Movimento
Ipereg Ayu – organização indígena de luta contra a construção das hidrelétricas
previstas no PAC.
A pauta da reunião indicava a urgência desse
encontro. Feita de forma aberta, podendo qualquer Munduruku opinar ou adicionar
pontos, ela continha mais de vinte itens – tendo destaque no debate a
estruturação do movimento Ipereg Ayu e ações para o fortalecimento da
resistência ao projeto federal, firmando uma agenda autônoma de ações para
2014. Vale a pena ressaltar alguns direcionamentos e decisões que apontam novos
rumos na luta.
Associação Pusuru é extinta e transformada em
Da’uk
Desde a reunião claramente arbitrária realizada
em Jacareacanga, no dia 3 de agosto, parte significativa dos indígenas da etnia Munduruku já não se viam representados pela Associação Pusuru. A insatisfação
tem motivos. A referida assembleia trocou a direção da entidade desconsiderando
a opinião dos caciques – que nos mais de vinte anos de existência da associação
tradicionalmente eram os responsáveis pela escolha do corpo diretório. Ao invés
de se configurar numa reunião interna da etnia, o encontro contou com a
intervenção de vereadores e prefeitura de Jacareacanga, além de forte aparato
policial, inibindo a livre escolha participação dos Munduruku presentes.
Por conta disso, o movimento Ipereg Ayu
extinguiu a associação e criou uma nova entidade representativa para a etnia. A
Da’uk (que em Munduruku significa taoca, espécie de formiga conhecida por
caminhar em coletividade) teve sua diretoria escolhida pelos mais de 60
caciques presentes.
Integram a nova associação Ademir Kaba
(coordenador), Reginaldo Poxo (vice-coordenador), Ismael Akay (primeiro
secretário), Antônio Saw (segundo secretário), Edivaldo Poxo (tesoureiro),
Artemizia Manhuary (primeira fiscal) e Solano Akay (segundo fiscal). De acordo
com Josias Manhuary, chefe-geral dos guerreiros e coordenador da 2ª reunião do
movimento Ipereg Ayu, a partir de agora as reuniões da entidade ocorrerão
somente em aldeias. “Vamos trazer a Da’uk mais para perto da gente. Não temos
que nos encontrar na cidade, mas sim dentro do nosso espaço, sem a
interferência de ninguém”.
Com as novas mudanças, o Conselho Indígena
Munduruku do Alto Tapajós (CIMAT) também se renova e agora se chama Conselho
Indígena Munduruku Pusuru Kao do Alto Tapajós (CIMPUKAT), coordenado por Ceso
Tawe e com os demais conselheiros, entre eles, Francisco Waro, Raimundinho,
Samúna Fanesa Manhuary, Valderino Waro Patauazal.
No
link, veja a carta
divulgada pela Da’uk.
Movimento Ipereg Ayu
A estruturação do movimento Ipereg Agu teve
destaque nas discussões. Atuando desde o início de 2013, o grupo tem se
dedicado ao fortalecimento das bases de luta contra as hidrelétricas, em um
trabalho que visa principalmente à união do povo Munduruku em prol da
preservação de sua identidade e território, aspectos culturais ameaçados pelos
grandes projetos.
Neste percurso, o movimento cada vez mais tem
recebido apoio de lideranças locais das diversas aldeias situadas no Rio
Tapajós, Teles Pires, Rio das Tropas, Kabitutu, entre outros. Na reunião foi
decidida a permanência do mesmo grupo à frente do movimento, composto por
Josias Manhuary, Adalton Akay, Maria Leuza Kaba, Neuza Kirixi, Francineide
Koro, Reginaldo Kaba, Zenóbio Manhuary, Ana Poxo e Adailton Paygo, fotógrafo da
organização.
Decidiu-se também pela realização de duas
assembleias anuais, sempre realizadas em aldeias. E a próxima já tem data
marcada: dia 19 de abril, na aldeia Missão São Francisco, no Rio Cururu.
Outro assunto evidenciado nas conversas diz
respeito às legislações internacional e nacional que garantem direitos das
populações indígenas, como a Declaração das Nações Unidas sobre o direito dos
povos indígenas e a Convenção 169 da OIT – leis violadas pelo governo
brasileiro quando ignora a realização da consulta prévia, assunto abordado pelo
procurador-geral da república, Felício Pontes, na reunião. (Veja aqui mais
informações sobre o debate)
Também foi debatida a mudança da nomenclatura
“área” para “território mundurucu” ao espaço reconhecido pela população
indígena como local de existência e resistência histórica da etnia, além da
retirada dos brancos do mesmo.
De acordo com Josias, chefe-geral dos guerreiros Munduruku, a luta tende a se aprofundar com os novos passos do Ipereg Ayu. “Não
iremos desistir de lutar por aquilo que é nosso por direito. A própria
Constituição brasileira reconhece isso. Nossas águas, florestas, animais e
plantas são coisas sagradas, sem tudo isso nossa cultura será perdida. Então
iremos nos fortalecer para lutar pela nossa identidade e modo de vida.
Organizados somos fortes”, ressaltou o chefe.
Amazônia
em Chamas apresenta série sobre a Saga Munduruku
A partir desta semana, o blog Amazônia em Chamas
apresenta uma série de reportagens-relatos-entrevistas-transcrições com os
materiais produzidos durante a estadia da equipe na aldeia Restinga. Para
acompanhar, acesse nossa página www.amazoniaemchamas.noblogs.org.

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