O chamado “Complexo
Hidrelétrico Tapajós” prevê a construção de sete usinas ao longo dos dois rios.
22/03/2014
Revoltados
com o possível início das obras de construção da Usina Hidrelétrica de São Luiz
do Tapajós, no Município de Itaituba, Oeste do Pará, moradores de comunidades
tradicionais e indígenas voltaram a pedir providências junto ao Ministério
Público Federal (MPF). Para resistir e denunciar a situação vivida na região,
comunidades tradicionais e indígenas, movimentos sociais, sindicatos e
entidades se reuniram em Itaituba, às vésperas do Dia Internacional de Luta
contra as Barragens, celebrado em 14 de março.
Como
resultado do encontro, na última segunda-feira, 17, as organizações entregaram
uma carta denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) em Santarém. Entre as
reivindicações está a realização de consulta prévia, livre e informada,
prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mas
não aplicada no contexto de construção das barragens.
As águas
dos rios Tapajós e Jamanxim estão na mira de projetos hidrelétricos do governo
federal e de grandes empresas. O chamado “Complexo Hidrelétrico Tapajós” prevê
a construção de sete usinas ao longo dos dois rios, no Oeste do Pará, o que
para a Organização Não-Governamental (ONG) Terra de Direito, deve impactar
diretamente 32 comunidades tradicionais, entre quilombolas, ribeirinhos, pescadores
artesanais, extrativistas e cerca de dois mil quilômetros de território
indígena, principalmente da etnia Munduruku.
Para
iniciar o processo de participação, a carta solicita uma audiência pública
aberta a toda população da região, com a presença de representantes dos
governos municipal, estadual e federal, ainda neste semestre, em Itaituba. O
anseio das comunidades e organizações é de que não se repitam as inúmeras
violações de direitos humanos em curso na construção das usinas de Belo Monte
do Rio Madeira.
Veja a carta na íntegra:
“Itaituba, 13 de março de 2014
Ao Ministério Público Federal – Estado do
Pará
Nós movimentos sociais, sindicatos e
organizações abaixo assinados, reunidos em decorrência do Dia Internacional de
Luta contra as Barragens, celebrado no dia 14 de março, vimos, por meio deste
documento, denunciar, as violações de direitos humanos que estão ocorrendo na
região em decorrência do projeto de “desenvolvimento”, que está sendo
implantado pelo Estado brasileiro e empresas multinacionais. Para essa região,
rica em recursos naturais, estão em curso projetos que violam os direitos
humanos das populações locais, como hidrelétricas, construção de portos para a
consolidação do agronegócio e mineração.
Muitas dessas violações já estão sendo
sentidas na pele pelas comunidades mais próximas a esses empreendimentos e no
município de Itaituba, sem sequer termos sido consultados sobre a implementação
desses empreendimentos. Assim, denunciamos:
A ofensa aos princípios democráticos e ao
direito humano à informação e participação, à medida que esses projetos estão
em curso sem qualquer diálogo participativo do Estado Brasileiro com as
comunidades da região; A violação do direito humano ao meio ambiente
equilibrado e à proteção da biodiversidade com a redução das unidades de
conservação; A violação do direito de Consulta Prévia, Livre e Informada dos
povos indígenas e comunidades tradicionais; Violação do direito ao território,
pois muitas empresas entram em nossas comunidades sem o consentimento dos
moradores; O agravamento dos conflitos internos e do conviver pacifico nas
comunidades a partir da entrada de pessoas contratadas por empresas
responsáveis pela implantação dos projetos; de um lado a omissão do Estado
Brasileiro que, embora tenha ciência do que vem ocorrendo em nossa região, não
nos dá voz, e por outro lado, a truculência com que age para cumprir cronograma
de execução dos projetos, se utilizando da Força Nacional de Operações
espaciais para inibir e amedrontar o povo da nossa região.
Diante disso, e por temermos e não
querermos que aconteça na região oeste do Pará o que vem ocorrendo na usina de
Belo Monte e usinas do Rio Madeira, pedimos ao Ministério Público Federal que
denuncie as violações de direitos humanos que já estão ocorrendo na região e exigimos
do Estado Brasileiro o direito de sermos ouvidos e respeitados, exigimos o
direito à consulta livre prévia e informada.
Nesse sentido, nós, movimentos sociais,
sindicatos e organizações abaixo assinados solicitamos uma audiência pública em
conjunto com o Ministério Público Federal com a participação de toda população
da região e com a presença dos governos Municipal, Estadual e Federal”.
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